Passos Coelho: “Quando quiser candidatar-me, candidato-me, e anuncio”

O ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho quebrou o silêncio político de oito anos e deu a sua primeira grande entrevista desde que saiu da liderança do PSD, em fevereiro de 2018.
Depois de duas semanas de intensas intervenções políticas em vários eventos – e de isso ter levantado suspeitas do seu eventual regresso à vida polícia e à liderança do PSD – Passos Coelho deu uma entrevista ao ECO onde explicou que acha “natural que as pessoas possam querer especular ou ter qualquer outra associação de ideias” sobre as suas intenções. E, quando lhe “perguntam, diretamente, sobre quais são” não vê “nenhuma razão para dissimular”.
“Quando eu quiser candidatar-me, candidato-me, e anuncio que me vou candidatar”, atirou, após quase uma década de reserva pública.
Na mesma entrevista, o antigo primeiro-ministro garantiu que está “de bem com a política e de bem com o país”, que não anda “à procura de nada em particular” mas também não tem de “excluir qualquer coisa que venha a fazer no futuro”.
“Eu acho que, depois daquilo que realizei, estou de bem com o que fiz. Estou de bem com a política e estou de bem com o país, não ando à procura de nada em particular, não tenho desforras para fazer, não tenho necessidade de querer provar ou mostrar o que quer que seja. Portanto, encontro-me de bem comigo, com a vida e com o mundo. Por essa razão, não sinto necessidade de correr atrás de nada. Agora, não sinto nenhuma necessidade de excluir qualquer coisa que venha a fazer no futuro, porque razão haveria de o fazer?”, atirou.
Para já, como realçou ao mesmo jornal, irá interferir publicamente sempre que considerar que seja útil, uma vez que sente que as suas “obrigações” não se esgotaram com o mandato de governo.
“Há pessoas que dão conta de um certo incómodo, ou de um certo nervosismo, pelo facto de eu me pronunciar sobre matérias de política nacional. Mas, mais uma vez, não me cabe a mim tentar explicar porque é que há pessoas que ficam nervosas pelo facto de eu me pronunciar, não tenho sequer de oferecer uma explicação para isso. Tenho pena que seja assim, mas não tenho nenhuma explicação para esse facto”, salientou.
Desta forma, sempre que achar pertinente fazer “chamadas de atenção”, não o deixará de fazer “por receio de que possam achar” que vai ser candidato “a qualquer coisa”.
“Governo deveria ter tentado acordo com o Chega e IL”
Por isso, é sem tabus que defende que o “Governo deveria ter tentado um acordo de legislatura com o Chega e a Iniciativa Liberal (IL)”.
“O Governo teria de ser procurado [um acordo] entre o Chega e a Iniciativa Liberal. É possível construir ou não um acordo de legislatura? Eu diria: Só o tempo demonstraria se era possível ou não”, mas desejável era, e deveria ter sido tentado. É desejável ter um quadro de estabilidade. Para quê? Para evitar justamente este desgaste, esta negociação casuística em que nem sempre se percebe o que é que é a posição que o Governo tem, o que é que são as responsabilidades que cabem à oposição. O jogo fica menos nítido para as pessoas. Quando chegarem as eleições, as pessoas terão mais dificuldade em fazer um juízo sobre o que se passou. Agora, quando se procura um caminho de estabilidade, tem de se negociar, mas para isso é preciso que as partes tenham vontade”, defendeu.
“Há uma grande urgência em reformar o país”
Para Passos Coelho há “uma grande urgência em reformar o país”: “Politicamente, isso é decisivo, porque o país esteve demasiados anos sem olhar para essa dimensão da política pública, reformista”.
“Cumpriu-se a disciplina orçamental que não se cumpriu durante muitos anos e isso fez, evidentemente, que tivéssemos tido problemas graves que podiam ter sido evitados no ano passado. Aparentemente, essa lição foi bem aprendida, e ainda bem, para que não voltemos a suportar os custos gigantescos dessa indisciplina. Mas uma coisa é não estarmos à beira da bancarrota, outra coisa é desperdiçarmos as condições políticas que as pessoas procuraram dar quando expressaram uma vontade de mudar, justamente para reformar o país, para regressar a uma visão reformista. E o PSD vendeu as eleições com essa missão. Essa foi a mensagem…”, sublinhou.
“Acho muito pouco provável que o PS ganhe as eleições”
Já sobre a oposição do PSD, Passos Coelho não tem dúvidas de quem pode fazer frente ao partido do qual um dia foi líder. “É pouco provável que, no dia em que o PSD perca as eleições, seja o Partido Socialista (PS) a ganhá-las”, começou por dizer, explicando a sua opinião.
“Muito provavelmente, é o Chega. É o partido que está mais próximo de poder aspirar a amealhar algum descontentamento que possa ser gerado pelo exercício de poder governativo, mesmo que o Presidente da República seja da área socialista. Eu julgo que teria sido preferível procurar um caminho de estabilidade. Arrisco dizer que, se esse caminho tivesse sido prosseguido, das duas uma: ou não teria sido bem-sucedido porque os líderes do Chega e da IL não teriam aceitado fazê-lo, mas seriam responsabilizados pelos eleitores por terem recusado dar condições de estabilidade. E, se tivessem acedido e criado um quadro de estabilidade, estaríamos melhor, seguramente”, concluiu.



