Passos Coelho crítica nomeação de Luís Neves: “Um precedente grave” na administração interna

O antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho considerou esta terça-feira “um precedente grave” a nomeação de Luís Neves, antigo diretor nacional da Polícia Judiciária, como ministro da Administração Interna. A declaração foi feita durante uma conferência organizada pela SEDES e pela AEP, no Porto, onde abordou a importância da independência dos reguladores e da separação de poderes. Passos Coelho comparou a situação à saída de Mário Centeno do Governo para o cargo de Governador do Banco de Portugal, sublinhando que, embora bem intencionadas, estas decisões não transmitem o sinal adequado à cultura de responsabilidade democrática.
Segundo o antigo líder do PSD, “não se pode passar de diretor da Polícia Judiciária para ministro da Administração Interna”, frisando que a crítica não é à pessoa escolhida, mas ao precedente que se cria. “Não é um bom sinal que se dá. Assim como não foi um bom sinal tirar o ministro das Finanças para o Banco de Portugal”, explicou, realçando a necessidade de preservar a independência das instituições estatais para garantir uma verdadeira separação de poderes e cultura de Estado de Direito.
Na sua intervenção, Passos Coelho recordou a importância de respeitar a autonomia dos reguladores e dos agentes públicos, afirmando que a cultura da regulação depende não só da lei, mas também da conduta dos próprios responsáveis. “Se isto está na lei, mas não está na cabeça dos agentes, é muito difícil. Mata a cultura da regulação”, alertou, acrescentando que esta postura influencia diretamente a confiança pública e a transparência na gestão do Estado.
O antigo primeiro-ministro abordou também questões de política económica, nomeadamente o impasse na reforma laboral, desafiando o Governo a abrir a mesa negocial e a apresentar reformas claras ao eleitorado. Passos Coelho salientou que os partidos devem assumir responsabilidades, apoiando ou chumbando propostas, e que é essencial que o Executivo demonstre competência administrativa e capacidade de decisão. “As pessoas estão exaustas de políticos que não querem decidir nada”, afirmou, defendendo um caminho reformista mesmo em governos de outros partidos.
No final da conferência, Passos Coelho reiterou que a competência na administração pública é mais importante do que a confiança política, recordando que no seu Governo convidou ministros com quem tinha pouco conhecimento pessoal, mas que demonstravam capacidade profissional. Para o antigo primeiro-ministro, garantir a eficácia do Estado depende de escolhas baseadas em mérito e competência, e não apenas em alinhamento político, reforçando a necessidade de responsabilidade, transparência e ética na liderança governativa.



