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“Crime compensa”. Afinal, quanto pode custar esconder bolas no Clássico?

O futebol português tem uma nova ‘guerra’ interna em mãos. FC Porto e Sporting estão envolvidos numa polémica devido aos incidentes que ocorreram na passada segunda-feira, no Clássico do Estádio do Dragão, a contar para a 21.ª jornada da I Liga.

Depois de balneários redecorados, sistemas de aquecimento a ‘ferver’ e apanha-bolas com funções redobradas e nunca antes vistas, levantou-se a questão das sanções que poderiam ser aplicadas com tantas ações eticamente reprováveis num jogo de futebol.

Em declarações ao Desporto ao Minuto, Gonçalo Almeida, advogado especializado em direito desportivo, analisou as incidências já reportadas pelo Sporting ao Conselho de Disciplina da FPF, numa participação disciplinar contra o FC Porto.

“É incrível como, em pleno século XXI, isto continua a suceder e para a Liga ainda é apanágio, infelizmente. Na questão dos apanha-bolas, o regulamento de disciplina da Liga de Futebol Profissional estipula no artigo 120.º, que aquilo que se passou são infrações disciplinares leves”, começou por comentar o advogado de profissão.

“O comportamento incorreto dos apanha-bolas, nomeadamente retardando a reposição da bola ou a entrega da bola diretamente ao jogador é punido com a sanção de repreensão e, acessoriamente, com uma sanção de multa entre cinco unidades de conta e no máximo 10, ou seja, entre os 500 e os 1.000 euros. Depois, em caso de reincidência, os limites dessa multa são aumentados”, continuou.

Estas sanções deverão agora ser avaliadas pelo CD da Federação Portuguesa de Futebol, uma vez que tanto os comportamentos dos apanha-bolas, como os roubos das toalhas de Rui Silva, entre outros, já foram reportadas pelo Sporting, nesta terça-feira.

Sporting anuncia participação disciplinar contra o FC Porto:
Sporting anuncia participação disciplinar contra o FC Porto: “Lamentável”
Num extenso comunicado oficial, o emblema de Alvalade aponta o dedo a várias atitudes do FC Porto no Clássico de segunda-feira no Estádio do Dragão, desde o roubo de toalhas, ao esconder das bolas.

Rodrigo Querido | 18:24 – 10/02/2026
Há, no entanto, uma divergência entre os castigos que são aplicados e os que efetivamente poderão mudar este tipo de ações por parte dos clubes. Gonçalo Almeida não recusa uma mudança de abordagem, ainda que prefira a mais próxima da pedagogia.

“Como é que a Liga pode aqui parar estas situações? Para já de uma forma pedagógica, tentando de facto transmitir a todos os seus filiados que não é esta a imagem que, quer as sociedades desportivas quer a Liga, querem passar. Isto é um comportamento completamente prejudicial à imagem do futebol português e da indústria do futebol. Portanto prejudica todos os envolvidos. Uma forma pedagógica deve ocorrer, se calhar com mais frequência”, avaliou, ainda que apresente outra alternativa mais agressiva.

“Sabemos, contudo, que a natureza humana por vezes não é muito suscetível de aceitar as coisas somente pela pedagogia e por vezes torna-se necessário agir do ponto de vista disciplinar, em reação àquilo que vai sucedendo de quando em quando nos estádios. E portanto, torna-se necessário, julgo eu, agravar as molduras sancionatórias e talvez evoluirmos para um patamar que ultrapassa a questão das meras multas. Quem sabe até o impedimento de realização de jogos ou realização de jogos à porta fechada”, considerou o advogado.

Numa análise mais aprofundada sobre o que poderá seguir-se na tomada de decisão deste tipo de situações no futuro pelo Conselho de Disciplina da FPF, tudo dependerá dos clubes. É ainda feita uma comparação com a pirotecnia, que o formado em Direito Internacional Desportivo considera que tem outros contornos, já que não está sob o controlo total dos emblemas.

“Acredito que um agravamento das sanções é algo claramente a ponderar, sendo certo que eu prefiro sempre optar por uma política mais pedagógica, mas não resultando, como não tem vindo a resultar até à data, inevitavelmente são os próprios clubes que se colocam numa posição de sofrerem sanções disciplinares mais gravosas. [É quase como a questão da pirotecnia?] Sim, mas isso não está tanto sob o controlo dos clubes quanto está a questão dos apanha-bolas e das toalhas. São claramente instruções diretas de responsáveis ou dirigentes que são coniventes com este tipo de atitudes que são altamente censuráveis”, atirou Gonçalo Almeida.

De recordar que o FC Porto respondeu poucas horas depois ao comunicado do Sporting, acusando as alegações do clube de Alvalade de serem “assentes em factos deturpados, falsidades e teorias da conspiração, e um evidente complexo de inferioridade”.

FC Porto responde ao comunicado do Sporting:
FC Porto responde ao comunicado do Sporting: “Complexo de inferioridade”
O FC Porto respondeu ao comunicado lançado pelo Sporting referente aos incidentes que ocorreram no Estádio do Dragão durante o Clássico, embora os dragões considerem que estas alegações são “assentes em factos deturpados, falsidades e teorias da conspiração”.

Davide Rodrigues Araújo | 20:57 – 10/02/2026
Quanto às toalhas de Rui Silva e ao sistema de som do Dragão…
Não é todos os dias que vemos este tipo de coisas acontecer num jogo de futebol, mas algo que já foi visto recentemente, embora numa Taça das Nações Africanas, foi o roubo das toalhas do guarda-redes da equipa visitante, de modo a comprometer a secagem das luvas durante a partida.

Segundo consta, esta ação foi completada num total de três vezes ao longo do Clássico, prejudicando a manobra de Rui Silva, ainda que não sejam conhecidos oficialmente os autores desta “brincadeira de mau gosto”, que Gonçalo Almeida considera “roçar o ridículo”.

“Sobre as toalhas, é preciso perceber quem cometeu a infração. Ora bem, a moldura disciplinar varia conforme o infrator. Podem ser dirigentes, jogadores, o clube, podem ser adeptos, ou outros agentes desportivos, portanto importa, primeiramente, definir quem é que cometeu essa infração, essa brincadeira de mau gosto de esconder as toalhas. Identificado o infrator, a questão da moldura disciplinar vai variar. O que é certo é que não existe uma tipificação no regulamento disciplinar para esta questão sobre as toalhas. Não existe um regulamento próprio que se dirija, que identifique esta infração. Não existe. Até porque isso roça o ridículo”

“Isto poderá ponderar-se aqui a aplicação de uma observação de outros deveres, que é um artigo aplicável consoante a natureza do infrator, mas que, com uma considerável convicção, não irá para além da aplicação de multas. Multas essas cujos valores, quando vemos a moldura disciplinar da questão dos apanha-bolas, que é de 500 a 1.000 euros, são irrisórios atendendo aos montantes que a indústria do futebol hoje em dia envolve. Aqui é caso para dizer que o crime compensa… Aliás, eu acho que não compensa nunca”, sublinhou ao falar das formas de punição destas atitudes.

Gonçalo Almeida considera pouco provável que estes atos não tenham sido incitados por algum dos dirigentes do FC Porto, já que nenhuma pessoa iria fazer as ações que se viram no Estádio do Dragão por iniciativa própria.

“É de facto uma péssima imagem que se passa dos envolvidos e dos clubes, neste caso do clube da casa, que deveria ter e tem todo o controlo sobre quem está junto ao relvado, e que está sempre conivente com esta situação, porque as pessoas, os apanha-bolas ou as pessoas que foram roubar as toalhas, seguramente não o fazem por iniciativa própria. Estarmos a passar essa ideia é estarmos aqui a um insulto ao nosso intelecto. Portanto, a conivência é de quem manda, agora resta saber quem é que mandou. Mas terá sido, obviamente, alguém ligado ao clube. De outra forma, não vejo como é que alguém pode mandar na minha casa sem ser eu”.

Ainda assim, a fatura que será passada ao FC Porto não ficará por aqui, já que, além dos roubos de toalhas e do comportamento dos apanha-bolas ao esconderem as bolas de jogo após o golo inaugural dos dragões, também foi utilizada a aparelhagem de som do Estádio do Dragão no setor visitante para ‘abafar’ os cânticos de apoio dos adeptos do Sporting, que poderá custar muito caro ao clube azul e branco.

“A utilização indevida da aparelhagem sonora diz mesmo que é será sancionada através de uma sanção de multa entre 25 e 50 unidades de conta, ou seja, entre 2.500 e 5.000 euros. Aqui é mais elevada a sanção, porque estamos a falar da aparelhagem sonora, que se ouve em todo o estádio, e que já vem de um passado recorrente em que, por vezes, até se interrompiam as partidas com essa utilização indevida da aparelhagem sonora”, complementou o advogado.

“Eu acho que, com tantas situações recorrentes, esta moldura sancionatória vai ter de aumentar consideravelmente, até ao ponto em que a Liga chegue à conclusão que pela via pedagógica já não consegue resolver este assunto, que as sanções das molduras são demasiado leves e que terá ou de aumentar os valores das multas, ou de aplicar outras sanções mais gravosas”, concluiu.

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